Crônica – O VELHO SAMUEL

Agricultor honesto, sofrido e injustiçado, o velho Samuel é igual a tantos outros que trabalham incansavelmente, lutam no anonimato, exercendo nas lides rurais atividade muito importante, mas desvalorizada pelos que detêm o poder, porém não querem o desenvolvimento econômico e social de nosso País.

Como acontece a quase todos operários rurais, Samuel tem um rosário interminável de histórias para contar. Narrativas que faz com simplicidade, sinceridade e sem rodeios, usando palavras singelas, que bem caracterizam a autenticidade do rurícola.

De voz branda, de calma invejável, tranqüilidade no olhar, sabe contar, com autenticidade, os fatos que marcaram a sua trajetória, nesta terra seca de sofrimento, onde a paz ainda reina na resignação e no amor que aqui não perecem, porque têm raízes profundas no coração, sem maldade, desta gente de alma cândida.

Dentre muitos acontecimentos que o velho Samuel narrou, no parapeito da fazenda, a verdadeira tribuna do sertão, um me sensibilizou pelo gesto altruístico que representou.

Ardia-se o Ceará numa terrível seca. A fome apavorava a todos, sem se falar nas epidemias, que, àquela época, matavam milhares de nordestinos. Em companhia de seu filho Benjamim, numa manhã de sol ardente, de um novo dia de angústias e incertezas, Samuel dirigia-se à caatinga, de foice em punho, sem saber o que fazer. Talvez o hábito de trabalhar, todos os dias, o tenha levado para o lado da roça.

Na caminhada sem rumo, seguido pelo pequeno filho que o acompanhava de chouto, teve de interromper a jornada pelo pouso rápido de uma asa-branca, que, de vez, colocou-se a seus pés. Pela experiência, pela convivência pacífica com a natureza e os animais, sabia que algo perseguia aquela ave. Somente o instinto de preservação da vida, fazia com que um animal tão bravio viesse, assim, entregar-se ao alcance de suas mãos. Não tardou a chegada de um enorme gavião, implacável perseguidor da pobre ave.

Mesmo com o espectro da fome martirizando a todos, o Velho Samuel acolheu a asa branca trêmula e humilhada, acariciou-a e disse em voz alta, como para advertir o filho, que já começava a salivar o gosto da caça: “Não temas querida Asa Branca, de agora em diante, nada mais lhe vai acontecer, e, dentro em breve, você estará em liberdade, chorando como eu, a tristeza do sertão”.

Depois que o gavião foi embora, Samuel, no mais admirável ato de dignidade e solidariedade, abriu a mão, para que a ave continuasse em liberdade. A Asa-Branca ainda permaneceu, alguns segundos, na mão que a acolheu, quem sabe, com medo de enfrentar outros agressores, porque sentiu, naquele afago, o verdadeiro ninho do amor.

Gesto de dignidade como este se pratica, com freqüência, no sertão, onde o homem ainda põe o seu espírito afetuoso a serviço de tudo e de todos. Se Samuel não matou a fome, pelo menos confortou o espírito, praticando um ato de justiça e de amor.

Mostrou que em qualquer circunstância o homem tem oportunidade de fazer o bem e ficar em paz consigo mesmo. Na memória de Benjamim permanecerá indelével aquele exemplo de bondade. A semente da boa ação foi plantada no coração daquela criança, e por mais que seja combatida, haverá de germinar e colorir o mundo de flores, simbolizando a grandeza do afeto.

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CLEUMIO PINTO RADIALISTA DRT/CE 5687 - MATRICULA 7723

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